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No semiárido, covid-19 só é descoberta quando a morte leva um sertanejo

Por Carlos Madeiro- Uol

O ano de 2020 parecia marcar uma redenção para o sertanejo. A chuva tão esperada nos últimos tempos voltou a cair acima de média, os reservatórios estão mais cheios e as plantações vão bem — como não ocorria há anos. Mas a chegada do novo coronavírus fez o morador do semiárido enfrentar um drama: a proliferação da doença em uma região marcada pela falta de estrutura de saúde.

 Sem testes e com poucos hospitais e médicos, pequenas cidades da região só descobrem a covid-19 quando alguém adoece gravemente e, muitas vezes morre da doença.

Levantamento feito pelo UOL com dados do Comitê Científico do Consórcio Nordeste, do dia 27 de abril, aponta que das 51 cidades da região que registravam apenas mortes pela doença (ou seja, contabilizavam a morte como primeiro caso, sem outros registros), 34 eram do semiárido.

Motivos que ajudam a explicar o fenômeno: o cultural, que faz com que muitos não procurem serviços de saúde antes do agravamento da doença, o desrespeito às medidas de isolamento social ou mesmo a dificuldade para obter informações de qualidade.

Mas o maior desafio é que no semiárido — região mais seca do país que inclui 1.133 municípios de oito estados do Nordeste e norte de Minas Gerais — falta estrutura para tratar a covid-19.

Dados do CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde) de fevereiro mostram que as cidades do semiárido contam com 1.237 leitos de UTI (Unidade de terapia intensiva) para atender os 22 milhões de habitantes. Apesar de ter 10,5% da população brasileira, a região fica só com 3% dos leitos do país.

Cidades sem recursos

Na pequena Utinga (a 400 km de Salvador), no sertão baiano, a covid-19 tem a incrível letalidade de 100%. Trata-se do único caso de novo coronavírus diagnosticado na cidade de 19 mil habitantes: um paciente de 80 anos que deu entrada já com insuficiência respiratória grave. A morte do idoso foi confirmada por exame no dia 3 de abril.


“Nós isolamos o paciente, colhemos exames, aguardamos a vaga de transferência, que infelizmente não veio a tempo. Fizemos o protocolo de funeral e isolamos os familiares e contactantes. Não tínhamos testes rápidos na época. O fato é que não tivemos mais casos depois disso”
conta o médico Daniel Chini Oliveira.

A realidade de Utinga é a mesma de muitas cidades do semiárido do Nordeste: apenas um pequeno hospital, sem condições de atender casos graves que dependem de ventilação mecânica. Muitos morrem antes de serem transferidos.

Em Agrestina (a 148 km do Recife), no agreste pernambucano, o único caso de covid-19 foi de um homem de 60 anos que deu entrada no hospital municipal no dia 15 “com desconforto respiratório intenso”. “Antes de ser realizada a transferência para um hospital de referência, o paciente veio a óbito”, diz informe da prefeitura.

Assim como em Agrestina, no dia 28 de abril não havia casos em investigação em Utinga — o que não quer dizer que o vírus não circule.

“Talvez essa doença esteja circulando na cidade com casos leves que não estão sendo diagnosticados, por falta de exames ou porque os pacientes não estão procurando o serviço de saúde nos casos leves, ou então o caso encerrou por aí. O fato é que a doença só tem sido testada em casos mais graves. Pode ser que, quando a doença encontrar pessoas de risco, apareçam mais casos na cidade”, explica o médico Oliveira.

Segundo o secretário de Saúde de Pernambuco, André Longo, a eventualidade pode explicar as cidades que têm casos apenas de óbitos (sem outros registros de diagnóstico da doença).

“Nossa testagem obedece a critérios de gravidade. Por vezes, poucos indivíduos de uma cidade foram testados, porque os casos não evoluíram para forma grave, e é acidental que a única pessoa que tenha testado tenha o quadro de SRAG [síndrome respiratória aguda grave]. Isso é da própria estratégia de testagem, que não está ampliada porque não temos testes suficientes para atender os outros casos”, comenta.

Sem serviços de alta complexidade

A realidade dos municípios sertanejos é de escassez para os serviços de alta complexidade na saúde. Poucas cidades são referência em atendimento e possuem redes de suporte com leitos de terapia intensiva. Na maioria, há pequenos hospitais onde reina a falta de médicos. Com médicos distantes de suas casas, muitos optam por não procurar os serviços de saúde.

“No caso do sertão e municípios mais isolados ou zonas rurais, essas pessoas têm uma dificuldade enorme no acesso à saúde e podem acabar tendo sintomas e não procurando atendimento, ou mesmo não tendo a quem recorrer”, diz Rafael de Freitas e Silva, biomédico, professor da UPE (Universidade de Pernambuco) e doutor na área de imunologia.

Segundo ele, a carência de profissionais também ajuda a explicar a dificuldade em acesso a serviços essenciais. Além disso, há uma questão cultural e educacional que precisa ser levada em conta. “Qual o nível de conhecimento dessas pessoas sobre a covid-19? Qual o acesso que elas têm à informação? Muitas vezes precisa que alguém informe, porque muitos não sabem nem ler”, lembra o biomédico, citando que se torna mais difícil convencer pessoas dessas cidades a cumprir um isolamento social.

“Vejo como necessidade urgente que as cidades e municípios do interior respeitem o isolamento social e também tenham um controle sanitário para impedir ao máximo que os casos saiam da capital e migrem para o interior”, completa o professor da UPE.

Há outra preocupação, lembrada por Cristina Nascimento, coordenadora da ASA (Articulação do Semiárido) no Ceará. “O nosso território rural é muito envelhecido, e mais preocupante ainda porque é um lugar de difícil acesso a serviços de saúde, a informação com qualidade, a alimentos, e tantas outras questões”, diz.

Segundo Nascimento, com a redução do programa Mais Médicos e a saída dos profissionais de saúde cubanos, no final de 2018 a situação ficou mais difícil.

“O programa possibilitou a muitas comunidades pela primeira vez receber atendimento perto de casa. Agora, no entanto, o sistema de saúde está muito concentrado na sede dos municípios. Mesmo com pequenos postos de saúde nos distritos e algumas comunidades pólo, e com os agentes de saúde — que são fundamentais —, há falta de médicos”, lamenta.

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