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Foto: Aline Alves - Rezando para quebranto

Rezadeiras: Misto de fé e manifestação cultural

Por: Aline Alves

A sabedoria ancestral tem permanecido resistente mesmo diante dos avanços tecnológicos e da medicina. No interior do Brasil, principalmente no Nordeste, algumas pessoas ainda têm o costume de procurar a cura do corpo e da alma através da fé e sabedoria das rezadeiras, mulheres com um dom que mantêm viva uma tradição cultural que é passada de geração em geração.

Se revirarmos a história do nosso país, lá encontraremos a figura das rezadeiras que se originam da cultura indígena e africana, conhecedoras de ervas e suas funções. Elas, por muitas vezes eram o único auxílio, procurado para amenizar sofrimentos e curar dores. São consideradas “guardiãs da memória” por preservarem os ritos e orações. O espaço físico para exercer o seu dom, geralmente é no quintal ou terreiro de suas casas, um campo de representações simbólicas.

Um misto de fé, dom e solidariedade

Desde pequena, Vanessa de Sousa era levada pela mãe a casa de rezadeiras. Esse costume de rezar para ”tirar o quebranto” ou “levantar o vento” Vanessa repassa para sua filha Jeovana, e sempre que vai a Dom Expedito Lopes procura à casa da rezadeira Do Carmo. Para ela as rezadeiras são mulheres de um dom especial que rezam para o bem.

Sonora: Vanessa de Sousa

Gestos e reza: Uma fé popular

Com um galho de erva na mão a rezadeira vai benzendo a pessoa em forma de cruz passando o ramo sobre a cabeça e corpo, sacudindo os ramos recitando uma oração até as folhas murcharem.

Vídeo: Aline Alves –  Rezadeira rezando

Há 62 anos rezando para o bem

Chegando a Dom Expedito Lopes, quem desejar encontrar uma rezadeira para tirar o quebranto, levantar espinhela ou vento caído, rezar de engasgo, morfina ou tirar sol da cabeça, procure dona do Carmo.

Foto: Aline Alves – Rezando para quebranto

Maria do Carmo Mendes têm 74 anos, aos doze despertou interesse em aprender a rezar. As rezas que até hoje tem ajudado crianças e adultos foram ensinadas, por uma senhora chamada Bila, a qual ela passou a chamar de madrinha.

Inicialmente a jovem rezadeira colocava em prática o seu dom em locais mais reservados sem que outros pudessem ver, pois tinha vergonha devido a sua pouca idade, diante de rezadeiras mais velhas.

Benzedura para tirar sol da cabeça

Se você anda exposto demais ao sol e tem sentido dor de cabeça, você está precisando “tirar o sol da cabeça”. A preferência é que se reze ao nascer do sol, mais em alguns casos da pessoa não conseguir levantar cedinho, a reza pode ser ao entardecer antes do sol se pôr.

Foto: Aliene Alves – Rezando de sol na cabeça

A pessoa com a dor de cabeça senta-se de costas virada em direção ao sol, a rezadeira coloca uma toalha dobrada em quatro partes sobre o local dolorido da cabeça e sobre a mesma, uma garrafa transparente cheia de água com o gargalo sobre a toalha. Daí vai rezando com movimentos leves tocando no fundo da garrafa, ao terminar à água é derramada no chão ainda com a pessoa sentada.

Foto: Aline Alves – Rezando de sol

Um dos males dos quais muitas mães costumam recorrer á ajuda das rezadeiras, é a espremedeira em bebês, cólicas fortes que ocasionam o estufamento do umbigo. Marlene Oliveira e sua família buscaram auxílio na reza e na medicina popular a cura para seu sobrinho.

Sonora: Marlene Oliveira

“Tem gente que tem fé na minha reza igual tem em Deus

Maria do Carmo pretende repassar os ensinamentos adiante para que na sua ausência uma neta, bisneta ou filha possa continuar fazendo o bem às pessoas. Ela sabe que têm muita gente que não acredita, mais reconhece as pessoas de fé que confiam em seu dom.

Sonora: Maria do Carmo

As rezadeiras são um patrimônio imaterial presente na vida histórica e cultural do Brasil. Possui uma importante função na parcela da sociedade que mantém usos e costumes tradicionais. Através de seu saber religioso, por meio das rezas e dos rituais são capazes de curar males e devolver o equilíbrio emocional e físico àqueles que às procuram.

Este ofício de vida social de base comunitária deve ser transmitido de geração a geração para que essa cultura continue contribuindo para a preservação do patrimônio cultural.

 

 

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