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Silêncio e resistência no Araguaia: uma história que o tempo não pode esquecer

Um dos momentos que mais marcaram o período do regime militar no Brasil, foi a Guerrilha do Araguaia. O foco guerrilheiro montado na região conhecida como Bico do Papagaio, próximo às cidades de São Geral do Araguaia e Marabá no Pará e Xambioá, no norte de Goiás, onde hoje se encontra o estado de Tocantins, tinha como objetivo fomentar uma revolução socialista, iniciada no campo, seguindo os exemplos exitosos da Revolução Cubana e Revolução Chinesa.

A guerrilha criada pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) com o intuito de derrubar o regime vigente, começou a se formar no final da década de 60 se estendendo até 1974. Uma parte dos guerrilheiros fizeram treinamento politico-militar na China entre os anos 1964 e 1968, onde aprenderam várias técnicas de sobrevivência, resistência e combate na mata.

A busca pela exploração daquelas terras virgens em sua grande maioria, por pedras preciosas, extrativismo e busca por peles de animais, levou muitos brasileiros de outras regiões a deixarem suas terras em busca de dias melhores. O piauiense Miguel da Silva, natural de Oeiras, conhecido por Miguel Melicio, como tantos outros, chegou à região em 1970 em busca de dias melhores na cidade de Xambioá. O senhor Miguel conta que ao chegar à região abriu um bar-pousada onde teve contato com muitos guerrilheiros e combatentes do Exército Brasileiro.

Antes das incursões militares, a grande maioria dos moradores não sabia com que intuito os guerrilheiros estavam ali naquela região. O senhor Miguel fala que eles não eram muito de frequentar os bares locais, mas que mesmo assim teve contato e conheceu alguns pessoalmente.

“A maioria das conversas era só bom dia, boa tarde, boa noite, oi e oi. Eu falava mais com Osvaldão, pois um tempo ele se hospedou em um hotel que eu frequentava. Mas eu conheci o Fogoió, a Dina, o Zezinho. Quando eles atravessavam pra São Geraldo eles se separavam, era difícil ver eles em grupo. Eu hospedava muito em meu hotelzinho eram os pistoleiros dos fazendeiros da região. Muitos iam se hospedar lá!

Miguel destaca que os conflitos na região já aconteciam antes dos combates entre o exército e os guerrilheiros, eram constantes os conflitos entre pistoleiros de fazendeiros e posseiros naquela região.

“Teve dois pistoleiros que se hospedaram no meu hotel e foram mortos pelos posseiros. Um se chamava Davi e outro era conhecido com Zé Lobisomem. O Davi era lá da cidade mesmo de Xambioá e o Zé Lobisomem era de Marabá. Foram mortos na Ponte do Tabocão, depois de São Geraldo. Eles estavam levando combustível para a Fazenda e os posseiros estavam esperando eles, atiraram dos dois lados da caminhonete e em seguida colocaram fogo na caminhonete com os corpos dentro”

De acordo com o senhor Miguel, as incursões do exército começaram a se intensificar a partir de 1972, mas eles chegavam disfarçados para tentar descobrir qual era a localização do foco guerrilheiro naquelas terras.

“Eles diziam que era peão de fazenda, tinha um que vendia alho, brita, cabresto, sela, um paraibano, que na verdade era tenente do exército. Tinha um mineiro que era chamado João Pinhão que também era do exército disfarçado, esse trabalhava de fazenda em fazenda. Eles viviam dentro do meu hotel, de minha casa, mas eu não sabia que eles eram do exército e nem que eles estavam procurando os guerrilheiros”

Os “paulistas”, como os moradores chamavam os guerrilheiros, também não se identificavam como tal e nem contavam suas reais intenções naquelas terras. Eles conviviam pacificamente com os moradores da região. Ajudavam e eram ajudados pelos moradores em muitas atividades que praticavam. O senhor Miguel conta que eles ficavam muito isolados às vezes, para não dar pistas e não serem descobertos.

“Eles ficavam mais isolados mesmo. Não gostavam de pescaria coletiva e nem de praia. Mas eram muito humildes e tinham um contato bom com a população. Eles fizeram amizade fácil com o pessoal da região. Os garimpeiros, barqueiros, donos de embarcação e os moradores mesmo gostavam muito deles. Eles aprenderam muito com o povo da região, sabiam todas as fronteiras e locais de entradas e saídas. E tinha muita amizade, eles”

Em 1974 depois de outras operações que não obtiveram os resultados esperados, o Governo Brasileiro enviou uma tropa de 5 mil homens para combater os guerrilheiros que resistiam dentro da mata daquela região. O senhor Miguel conta que foram tempos difíceis e com muito sangue derramado.

“Eu vi muito sangue derramado naquela Xambioá. Eu vi muita gente morta. Muita gente que eu conhecia. A Dina foi uma das últimas a ser pega em agosto de 1974. Osvaldão foi morto 3 horas da tarde na Serra Trairão. É uma chapada que tem mais é banana braba. Ele foi morto atravessando um rio com um tiro de espingarda calibre 20. O cara que matou ele é aqui de Campinas do Piauí. Um caçador que andava junto com o exército. O corpo do Osvaldão foi levado pendurado em um helicóptero, mas ninguém sabe o que fizeram com o corpo depois. Fogoió foi enforcado na delegacia de Xambioá”

É importante que essa história seja contada principalmente nos dias atuais quando o autoritarismo ameaça voltar a reinar no país. Foram tempos difíceis, onde muitos foram torturados e mortos por se oporem ao regime que imperava na época. Essa reportagem também é uma forma de recordar aqueles que foram resistência e que deram suas vidas pela liberdade e pela vida de todos.

Por Jeremias Santos

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